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Saúde Saúde mental

Luta antimanicomial e a saúde mental: cuidado e dignidade

Entre o tratamento, a escuta e o direito de existir em liberdade

01/02/2026 00h11
Por: Portal ABC News Fonte: Rafael Gasques
Luta antimanicomial e a saúde mental: cuidado e dignidade

A saúde mental voltou ao centro do debate público nos últimos anos. O aumento dos afastamentos do trabalho por transtornos mentais, os impactos da pandemia e a maior visibilidade do sofrimento psíquico trouxeram à tona uma discussão que, por muito tempo, ficou restrita aos muros das instituições de saúde. Mais do que números, falar de saúde mental é falar de pessoas, histórias e direitos.

Com mais de 50 anos de atuação, o Centro de Tratamento Bezerra de Menezes (CTBM), localizado em São Bernardo do Campo, é referência no atendimento em saúde mental e dependência química. A instituição recebe pacientes com diferentes transtornos mentais e, mais recentemente, pessoas que enfrentam adoecimentos psíquicos relacionados ao trabalho, como a síndrome de burnout.

Durante décadas, o cuidado em saúde mental esteve quase exclusivamente associado à internação psiquiátrica. Em muitos casos, essas internações eram longas, afastavam o indivíduo da família e da vida social e ocorriam em ambientes marcados pelo isolamento e pela perda de autonomia. Esse modelo, conhecido como manicomial, passou a ser questionado no Brasil a partir do final dos anos 1970, dando origem ao movimento da luta antimanicomial.

A principal defesa desse movimento é clara: tratar não pode significar excluir. O cuidado em saúde mental deve acontecer, sempre que possível, em liberdade, com acolhimento, escuta e acompanhamento contínuo. A internação, quando necessária, precisa ser um recurso terapêutico pontual, e não uma forma de silenciamento.

No Brasil, essa mudança de perspectiva ganhou força com a Reforma Psiquiátrica e foi consolidada pela Lei nº 10.216, de 2001, que garantiu direitos às pessoas com transtornos mentais e priorizou o fortalecimento de serviços comunitários. A partir desse marco, o país passou a investir em uma rede de atenção psicossocial, formada por diferentes dispositivos, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), residências terapêuticas e serviços hospitalares especializados.

Mesmo com os avanços, os desafios seguem expressivos. Estimativas globais indicam que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental no mundo. No Brasil, os afastamentos do trabalho por motivos relacionados à saúde mental cresceram de forma significativa nos últimos anos, impactando diretamente a vida das pessoas e a economia. Ansiedade e depressão estão entre os transtornos mais comuns, afetando principalmente jovens e mulheres.

Os números ajudam a dimensionar o problema, mas não traduzem a complexidade das experiências individuais. Cada trajetória de sofrimento é atravessada por fatores sociais, emocionais, familiares e econômicos. É nesse contexto que o debate sobre o modelo de cuidado se torna fundamental.

“As situações de recomendação de internação são, hoje, para casos em que a pessoa acometida por algum transtorno psíquico apresenta um contexto de risco para si mesma ou para as pessoas à sua volta. As maiores demandas são de pacientes com ideação suicida, quadros de psicose, ideação delirante, desorganização motora e do pensamento, além de desorganização psicomotora”, explica o Dr. Hercílio P. de Oliveira Jr., psiquiatra e diretor médico do Centro de Tratamento Bezerra de Menezes.

Para especialistas, a escuta qualificada e o vínculo terapêutico são pilares do tratamento em saúde mental. Mais do que controlar sintomas, o cuidado precisa considerar a história de vida do paciente, seus afetos, suas redes de apoio e sua capacidade de reconstruir projetos. A atuação de equipes multiprofissionais, formadas por psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e outros profissionais, amplia as possibilidades de intervenção e contribui para reduzir internações prolongadas.

“Nós trabalhamos com o tratamento biopsicossocial e priorizamos o retorno do paciente para casa, para a família e para o emprego. Para isso, é fundamental envolver a família e os profissionais em conjunto, para que o paciente tenha o apoio do seu núcleo social. O tratamento não pode ocorrer apenas aqui, para que, ao retornar, os problemas não retornem também”, relata o psicólogo do CTBM, Dr. Paulo H. T. Cavicchio.

A mudança no modelo de cuidado também dialoga com a trajetória da psiquiatra Nise da Silveira. Em um período marcado por práticas invasivas, ela defendeu um tratamento baseado no afeto, na liberdade e na expressão simbólica. Ao criar ateliês de arte em hospitais psiquiátricos, mostrou que pessoas em sofrimento psíquico não perdem sua capacidade criativa nem sua humanidade, influenciando gerações de profissionais e fortalecendo uma psiquiatria mais ética e sensível.

Atualmente, a luta antimanicomial não nega a complexidade dos transtornos mentais nem descarta recursos clínicos e, quando necessários, hospitalares. O que se busca é equilíbrio: um cuidado orientado pelo respeito, pela dignidade e pela preservação dos vínculos sociais, reconhecendo o paciente como sujeito de direitos, e não apenas como portador de um diagnóstico.

Além dos serviços hospitalares especializados, os CAPS cumprem um papel central no cuidado em liberdade. Esses equipamentos atendem milhares de pessoas todos os anos e são responsáveis por grande parte do acompanhamento contínuo em saúde mental no país, reduzindo internações e fortalecendo a autonomia dos usuários. Ao acompanhar a rotina de um CAPS, é possível observar a importância de espaços que acolhem, orientam e acompanham pessoas em sofrimento psíquico.

“O tempo inteiro, principalmente a equipe de enfermagem, sempre disposta a ajudar e ouvir. Fiquei impressionada, pois ainda há muito estigma em relação à saúde mental. A gente acha que é um lugar hostil, e infelizmente alguns realmente são, mas o CAPS me surpreendeu da maneira mais positiva possível”, relata uma paciente que realiza tratamento por meio da rede pública.

A luta antimanicomial segue atual porque ainda há muito a avançar. O acesso aos serviços é desigual, os recursos são limitados e o preconceito ainda pesa sobre quem enfrenta transtornos mentais. Ao mesmo tempo, cresce a consciência de que saúde mental é um tema coletivo, que envolve políticas públicas, profissionais preparados e uma sociedade mais empática.

Falar sobre saúde mental é, acima de tudo, falar sobre direitos: o direito à escuta, ao cuidado, à dignidade e à reconstrução de caminhos. Nesse contexto, instituições como o Centro de Tratamento Bezerra de Menezes e os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) desempenham um papel essencial. Ao abrir suas portas para o diálogo e compartilhar a experiência de seus profissionais, reafirmam o compromisso com um cuidado em saúde mental pautado na ética, no respeito e na responsabilidade técnica. Garantir que todas as pessoas tenham acesso a um tratamento digno, humanizado e adequado às suas necessidades não deve ser exceção, mas sim um direito assegurado. A saúde mental é parte indissociável da saúde como um todo e deve ser compreendida como um bem coletivo, acessível a todos.

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Rafael R. S. Gasques
Sobre Rafael R. S. Gasques
Rafael é jornalista e produtor editorial. Nesta coluna, análises e reportagens especiais.
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