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O Brasil está mais quente — e isso já custa vidas, dinheiro e amplia desigualdades

O que pode parecer apenas um desconforto térmico, no entanto, esconde um impacto muito mais profundo. O calor extremo não é só um fenômeno ambiental — ele afeta a saúde, compromete a economia e aprofunda desigualdades sociais.

08/02/2026 22h10
Por: Portal ABC News Fonte: Rafael Gasques
O Brasil está mais quente — e isso já custa vidas, dinheiro e amplia desigualdades

O Brasil está vivendo um novo normal climático. Nos últimos anos, recordes de temperatura deixaram de ser exceção e passaram a compor a rotina de milhões de pessoas. Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) mostram que 2023 e 2024 figuram entre os anos mais quentes da série histórica, com temperaturas médias até 1,5°C acima da média do século XX.

 Ondas de calor mais frequentes e mais longas

Entre 2000 e 2024, o número de ondas de calor registradas no Brasil quase triplicou. Regiões como o Sudeste e o Centro-Oeste concentram alguns dos episódios mais intensos e prolongados, enquanto capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Cuiabá quebraram sucessivos recordes de temperatura.

Fonte: Jornal da USP
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Em São Paulo, por exemplo, o número de dias acima de 33°C mais que dobrou nas últimas duas décadas.

Mas esse aumento não é apenas um dado climático. Ele representa um risco direto para a população, especialmente em centros urbanos densos, onde o concreto, a falta de áreas verdes e o fenômeno das ilhas de calor ampliam ainda mais a sensação térmica.

O impacto do calor não se limita ao desconforto. Ele começa no corpo — e termina na economia.

Quando o calor vira crise de saúde pública

À medida que as temperaturas sobem, cresce também a pressão sobre o sistema de saúde. Estudos epidemiológicos e dados do SUS indicam que períodos de calor extremo estão associados ao aumento de internações por desidratação, insolação, complicações cardiovasculares e respiratórias.

Idosos, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas figuram entre os grupos mais vulneráveis. Em semanas com temperaturas significativamente acima da média, a mortalidade pode crescer entre 5% e 15% em grandes centros urbanos.

Ou seja, o calor não apenas adoece — ele mata.

Além do sofrimento humano, cada internação extra representa também um custo financeiro para o sistema público de saúde, ampliando a pressão sobre um setor já historicamente sobrecarregado.

Mas os efeitos do calor não param nos hospitais. Eles se estendem ao mercado de trabalho e à economia.

O calor que adoece também reduz a produtividade

O impacto econômico do calor extremo é silencioso, mas significativo. Estimativas do Banco Mundial apontam que a produtividade do trabalho pode cair até 20% em atividades realizadas ao ar livre durante períodos de temperaturas elevadas.

Setores como agricultura, construção civil, transporte, comércio informal e serviços urbanos estão entre os mais afetados. Para trabalhadores que dependem de esforço físico ou exposição direta ao sol, o calor significa fadiga mais rápida, menor rendimento e aumento do risco de acidentes.

Na prática, o calor se transforma em perda de horas trabalhadas, queda de renda e menor crescimento econômico.

Enquanto escritórios climatizados conseguem mitigar parte do impacto, milhões de trabalhadores informais e de baixa renda enfrentam o calor sem infraestrutura, proteção trabalhista ou pausas adequadas.

E esse impacto não é distribuído de forma igual.

Desigualdade térmica: quem sente mais calor paga mais caro

Ao cruzar dados de temperatura urbana, cobertura vegetal e renda, pesquisadores identificam um padrão consistente: bairros mais pobres tendem a ser mais quentes.

Áreas com menos árvores, mais concreto e menor investimento público podem registrar até 5°C a mais do que regiões mais ricas e arborizadas da mesma cidade.

Além de viverem em locais mais quentes, moradores de baixa renda têm menos acesso a ar-condicionado, moradias ventiladas, áreas verdes e serviços de saúde de qualidade. O resultado é uma combinação de maior exposição ao calor e menor capacidade de se proteger de seus efeitos.

Assim, o calor deixa de ser apenas um fenômeno climático e passa a ser uma questão de justiça social.

O mapa das temperaturas começa a se sobrepor ao mapa da renda — revelando que os termômetros sobem, mas o peso recai sempre sobre os mesmos.

Fonte: Jornal da USP
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 O futuro: mais calor, mais risco

Projeções climáticas indicam que, caso as emissões de gases de efeito estufa não sejam reduzidas de forma significativa, o Brasil poderá enfrentar ondas de calor mais longas, mais frequentes e mais intensas até 2050.

Grandes cidades podem conviver com meses inteiros sob estresse térmico extremo, elevando os custos para a saúde pública, pressionando o sistema energético e ampliando perdas econômicas.

O que hoje já representa um desafio tende a se tornar uma crise estrutural — com impactos diretos na forma como as cidades funcionam, como as pessoas trabalham e quem consegue se proteger.


Mais do que clima, um retrato do Brasil

A crise do calor extremo revela mais do que mudanças no clima. Ela expõe fragilidades históricas do país, como desigualdade urbana, informalidade no trabalho e acesso desigual à infraestrutura básica.

O calor é um fenômeno natural. Mas suas consequências são profundamente políticas, econômicas e sociais.

Entender quem sofre mais com o aumento das temperaturas não é apenas uma questão ambiental, é uma forma de compreender quem paga a conta do modelo de desenvolvimento brasileiro.

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Rafael R. S. Gasques
Sobre Rafael R. S. Gasques
Rafael é jornalista e produtor editorial. Nesta coluna, análises e reportagens especiais.
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