O discurso estava anunciado como agradecimento — e começou assim. Mas, ao longo de cerca de 25 minutos no salão do hotel Intercontinental, na Alameda Santos, região da Avenida Paulista, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) transformou o pronunciamento da vitória em um anúncio de prioridades para o quarto mandato. Aos 80 anos, reeleito com 51,78% dos votos válidos contra 48,22% de Flávio Bolsonaro (PL), Lula falou de juventude, de idosos, de Deus — e, sobretudo, das plataformas digitais, que prometeu regular.
O tom de quem venceu uma virada inédita
Lula chegou ao hotel por volta das 19h50, animado e sorrindo, segundo interlocutores. Ficou numa sala reservada com a primeira-dama Janja, o vice Geraldo Alckmin (PSB), o ex-ministro Camilo Santana e o presidente do PT, Edinho Silva. Quando o Datafolha projetou a vitória, por volta das 20h50, os gritos de "Lula, Lula!" tomaram o prédio — o mesmo que serviu de quartel-general para as vitórias de 2002, 2006 e 2022.
Na entrada do auditório, houve confusão: seguranças tentaram conter aliados e apoiadores para evitar superlotação, e o deputado André Janones (Rede-MG) precisou abrir caminho a cotoveladas. Minutos antes do discurso, Lula ainda apareceu numa live no Instagram do próprio Janones. Subiu ao palco com óculos vermelhos em formato de estrela, posou para fotos, distribuiu abraços e chegou a arriscar passos de dança.
Alckmin primeiro: "o futuro começa hoje e se chama juventude"
Bastante rouco depois de três semanas de campanha, Lula passou a palavra ao vice logo no início. "Ele tem muito a ver com essa nossa vitória e eu acho que é justo", justificou.
Alckmin fez o discurso mais emocionado da noite. "A primeira palavra, presidente, é gratidão. Gratidão ao povo brasileiro. Povo generoso, povo animado, os jovens. Hoje, não por acaso, dia 25 de outubro, é Dia Nacional da Juventude. Então, saudar os jovens. O futuro começa hoje e se chama juventude", disse.
Depois, saudou as mulheres — "que fizeram toda a diferença" — e os idosos, "que se sacrificaram e chegaram lá para votar". E fechou olhando para o presidente: "Meu profundo respeito. O senhor, pela segunda vez, salvou a democracia brasileira. E conte conosco, com humildade e senso de responsabilidade, para trabalharmos juntos e estarmos à altura da confiança do povo brasileiro."
Lula devolveu no mesmo tom: "Feliz o presidente que tem um vice da qualidade, da lisura de comportamento e da lealdade do Alckmin."
O agradecimento: juventude, idosos e o voto como conquista
Ao assumir o microfone, o presidente fez o que prometeu: agradeceu. E usou dados para sustentar o agradecimento.
"Hoje minha fala é de agradecimento. Tivemos o menor número de abstenções da história, o menor número de votos nulos. Tenho que fazer um agradecimento às pessoas que coordenaram nossa campanha, aos partidos que participaram. Mas queria agradecer ao povo brasileiro a generosidade que ele tem comigo há muito tempo."
O agradecimento central foi à juventude, que virou personagem da virada. "Nesse segundo turno, agradecer a generosidade da juventude brasileira, que foi para a rua defender a democracia."
E houve o momento mais humano da noite, dedicado aos mais velhos. "Quero agradecer às pessoas idosas. Vi muitas cenas hoje de pessoas sendo carregadas pelos seus netos para irem votar, pessoas impossibilitadas de se locomover, pessoas com câncer e com outro tipo de doença. Conseguimos convencê-las de que o voto era muito importante para assegurar a democracia no país."
A agenda do quarto mandato: regular as plataformas
Foi quando o discurso deixou de ser retrospectivo. Lula elegeu as big techs como o adversário central do novo mandato — não Flávio Bolsonaro. E foi direto ao ponto.
"Essa eleição foi uma eleição que a gente teve que vencer a intromissão vinda de fora para dentro através de plataformas digitais. Vamos ter que regulá-las”.
Emendou no argumento que deve virar projeto de lei: "Não é possível que a gente não tenha consciência de que o crime no mundo digital tem que ser tratado igual ao crime na vida real. Não podemos ver empresas monstruosas ganhando bilhões e bilhões, não pagando nenhum imposto para este país e tentando direcionar o resultado eleitoral."
E repetiu a frase em outra formulação, para a imprensa: "Não podemos ter empresas gigantes não pagando nenhum imposto nesse país e tentando manipular a eleição."
“Derrota do negacionismo, derrota da mentira"
Lula também deu nome ao que considerou ter sido derrotado nas urnas. "Essa eleição foi uma derrota para o negacionismo, uma derrota da mentira", afirmou, ligando o resultado ao enfrentamento das fake news ao longo da campanha.
Sobre os debates — tema que dominou a reta final —, fez uma confissão: "Confesso que cada vez que ia a um debate ficava constrangido."
Soberania e política externa
A frase que deve virar slogan do novo governo veio na parte dedicada à política externa: "O Brasil não aceita ser quintal de ninguém”.
O presidente defendeu a autonomia geopolítica do país e criticou a interferência externa no processo eleitoral, num discurso que também serviu de recado ao governo americano e ao campo bolsonarista que buscou apoio internacional na disputa.
“Não tenho mais adversários"
No campo doméstico, Lula prometeu ampliar a participação popular — e estendeu a mão ao Congresso, que será seu principal desafio a partir de 2027.
"Nós vamos fazer o povo participar mais das nossas decisões", disse. "Assim que a gente vence as eleições, a gente não tem mais adversários”.
Prometeu prioridade a políticas para idosos e mulheres, garantiu respeito a todas as religiões e admitiu o tamanho do desafio pela frente: "Vou dedicar 24 horas por dia."
A declaração de fé arrancou risos e aplausos da plateia: "Deus foi muito generoso comigo, porque tem tanta gente mais competente do que eu."
O tamanho da virada
O discurso aconteceu sobre um resultado que a política brasileira nunca tinha registrado. Lula é o primeiro candidato a vencer um segundo turno presidencial depois de terminar o primeiro em segundo lugar. Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro teve 47,03% contra 45,16% — vantagem superior a 2,2 milhões de votos.
Três semanas depois, o placar se inverteu: 64.238.031 votos (51,78%) contra 59.817.647 (48,22%), diferença de 4.420.384 votos, com 99,97% das seções totalizadas. A virada se consolidou em Minas Gerais, estado-chave da disputa, e no voto jovem e nas ruas — mobilizações organizadas por movimentos sociais e estudantes em dezenas de cidades.
O presidente do TSE, Kássio Nunes Marques, reconheceu a "expressiva vitória nas urnas" e destacou justamente a redução das abstenções entre o primeiro e o segundo turno — o dado que Lula fez questão de citar no discurso.
Com o resultado, Lula se torna o primeiro presidente eleito quatro vezes pelo voto direto no Brasil. Também amplia um recorde que já era dele: o de presidente mais velho a tomar posse, aos 81 anos, em 5 de janeiro de 2027.
O recado do Legislativo
Ainda na noite da vitória, o presidente da Câmara, Hugo Motta, pediu que Lula supere a polarização e prometeu apoio da Casa — sinal de que a relação com o Congresso será o primeiro teste do novo mandato, e possivelmente o principal obstáculo à agenda de regulação das plataformas anunciada no discurso.
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